gratidao12112009

Há alguns bons anos atrás li um artigo num jornal uma matéria sobre uma contribuição solidária de U$ 5.000 milhões que havia acontecido no eixo México e Etiópia. Na ocasião a Etiópia era – e talvez ainda seja – o lugar de maior sofrimento humano do mundo. Por causa de longas secas e uma série de conflitos armados, milhares de etíopes agonizavam devido a centenas de doenças e, o mais triste ainda, pela fome. Várias organizações mundiais estavam se mobilizando e convocando o resto do mundo para ajudar com comida, remédio e dinheiro. Não era surpresa alguma que tal “presente” fosse enviado, ou será que sim?

Entretanto, quando fui mais adiante na leitura fiquei boquiaberta com o que li. Pasmem, o dinheiro tinha sido enviado da Etiópia para o México, e não ao contrário! Isso mesmo, funcionários do Cruz Vermelha etíope enviaram a doação para ajudar as vítimas do terremoto que havia, neste mesmo período, devastado a Cidade do México. Bom, fiquei completamente confusa com tal informação e tentando encontrar um sentido para tal ato. Por que um país tão necessitado faria tal doação?

Pois bem, mais adiante encontrei a resposta e esta tinha uma razão sensacional. Apesar das enormes necessidades que prevalecem na Etiópia, a nação africana enviou o dinheiro para o México porque, em 1935, o México tinha enviado ajuda para a Etiópia quando este foi invadido pela Itália. Loucura, irresponsabilidade com os seus ou…

O desejo de retribuir a ajuda tinha transcendido grandes diferenças culturais, longas distâncias, escassez severa, vários anos e o “egoísmo” imediato. Mais de meio-século depois, contra tudo que parecia óbvio, triunfou a gratidão.

A ciência da gratidão me fascina. Por que aquele povo tão necessitado, tão carente de vida, depois de várias gerações ainda lembravam de tal fato e sentiam “obrigação” de retribuir? Ai é que está a questão…

Para muitos, nos dias de hoje, isso parece loucura, falta de inteligência, negligência com seu próprio povo, blá, blá, blá, mas para eles isso não era, em momento algum “obrigação” e sim GRATIDÃO!

Quase todo o mundo é vulnerável ao princípio de escassez. Muitas vezes basta dizer que tal coisa vai acabar que aquilo se torna ítem de primeira necessidade para as pessoas, tudo pelo simples fato de que elas sentem medo de não vão poder ter aquilo novamente ou melhor, “perder aquela oportunidade” que nunca mais vai acontecer. Medo… é exatamente isso que acaba movendo a sociedade a guardar muito e doar pouco. Os Etíopes, por todas as condições negativas e de extrema “dor” já descobriu que a vida acontece aqui e agora, e é neste agora que eles não exitaram em ajudar um povo que o ajudou há mais de 70 anos. O mundo dá muitas voltas…

Outra coisa que me chamou atenção em tal atitude: isso não estava escrito em lugar algum, não haviam documentos que comprovassem tal doação recebida em 1935, tal fato apenas foi passando de geração em geração. Em silêncio.

Uma pesquisa feita por dois psicólogos canadenses descobriu que as pessoas, em sua maioria, tendem a cumprir mais compromissos e/ou atitudes quando não são postas a público. Isso é causado por uma ferramenta muito comum, a influência social, que está profundamente enraizada em nossas mentes.

Seja utopia ou não, devemos deixar de lado, mesmo que apenas um pouco, o medo da escassez, da falta, e olharmos um pouco mais para os lados. Devemos viver agora e acreditar, cada vez mais, no poder da gratidão.

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